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Dissecações no século XXI – antiquadas ou úteis para o aprendizado da anatomia?

Aqueles que dissecaram ou inspecionaram muitos [corpos] aprenderam pelo menos a ter dúvidas; enquanto outros que são ignorantes em anatomia e não se dão ao trabalho de comparecer [às dissecações] não possuem dúvida nenhuma.” – Givanni Battista Morgagni, o pai da anatomia patológica.

A dissecação de cadáveres foi o principal método de ensino e aprendizado para se entender o intrincado, mas fascinante assunto da anatomia humana. Ela superou muitos desafios, desde sua introdução no século III antes de Cristo. Pesos pesados da anatomia histórica, como Hipócrates, Galeno, Andreas Vesalius e Leonardo da Vinci tiveram uma incrível contribuição para o assunto como um todo, tornando-o atualmente uma diversão (ou um pesadelo) para estudantes das ciência da saúde.

Dissecção anatômica por Pieter Pauw

Historicamente, a dissecação era considerada um rito de passagem para aspirantes a médicos, e cada um deles deveria passar por isso – sem exceções. Entretanto, as coisas mudaram no século atual com o avanço rápido da tecnologia, ciência e métodos de aprendizado. Como resultado, um caloroso debate sobre a utilidade das dissecações começou recentemente. Algumas escolas abandonaram completamente esse método de ensino, enquanto outras ainda o vêem como o melhor. Esse artigo irá discutir esse debate e tentar responder à mais pujante questão de todo departamento de anatomia – ‘as dissecações de cadáveres são antiquadas ou úteis para o aprendizado da anatomia?’

O último ‘homem’ de pé

Pode-se argumentar que qualquer coisa que sobrevive ao teste do tempo é alguma coisa especial e valiosa. Para o mundo da anatomia, a dissecação de cadáveres conseguiu realizar o feito. Ela começou na escola grega de medicina em Alexandria, no terceiro século antes de Cristo. A prática foi praticamente interrompida durante a idade média, mas retornou com uma vingança em Bolonha, na Itália, durante o século XIV. Sua popularidade continuou crescendo e mesmo a falta de corpos não pôde interrompê-la. De fato, a lei foi modificada para incorporar as dissecações, tornando mais fácil de obter espécimes e continuar a prática. Ela sobreviveu à igreja, guerras mundiais, percepção negativa do público e numerosos outros desafios, finalmente atingindo os dias de hoje. Ela é o ‘último homem de pé’.

Aula de Anatomia

Entretanto, várias escolas de medicina ao redor do mundo reduziram ou eliminaram completamente esse método de ensino no século XXI. Hoje em dia a anatomia é ensinada através de métodos que teriam impressionado os pesos pesados, como prosecções (dissecações realizadas por um anatomista experiente e em sequência utilizadas para ensino), modelos 3D, imagística, mesas virtuais (Anatomage) e realidade virtual. Além disso, muitas escolas dramaticamente reduziram o número de horas de anatomia ou utilizam um currículo baseado em problemas, no qual a anatomia é aprendida ao longo do curso. Isso é uma coisa boa ou ruim? Na verdade a resposta não é preto no branco, mas um cinza feio com muitos fatores envolvidos.

As dissecações são antiquadas?

Primeiramente, considere o lado cético – as dissecações cadavéricas são inúteis e completamente substituíveis. Aqui estão alguns aspectos associados com esse ponto de vista, segundo especialistas e relatos:

  • Emoções muito intensas – Essas cobrem um espectro de extrema ansiedade e distúrbios emocionais, até a dessensibilização, distanciamento emocional e indiferença em relação à morte e ao ato de morrer.
  • Pouca relevância clínica – Cadáveres possuem uma coloração, odor e textura completamente não realísticos. Eles também não possuem mobilidade.
  • Perigos à segurança e à saúde – Uma exposição potencial existe para estudantes à substâncias químicas, materiais humanos incorretamente preservados e patologias como AIDS, hepatite e tuberculose.
  • Limitações práticas – É cada vez mais difícil e caro obter, transportar, manter e se desfazer de cadáveres.
  • Demorado – Toma muito tempo preparar de maneira correta aulas de anatomia através de dissecações.

Dissecação - Pescoço e Tórax

Especialistas desse lado da argumentação acreditam firmemente que a tecnologia pode substituir completamente os cadáveres, devido às seguintes vantagens:

  • Evolução contínua – Equipamentos de diagnóstico por imagem estão se tornando cada vez mais automatizados, portáteis, fáceis de utilizar e disponíveis, e consequentemente mais baratos.
  • Reflete as exigências profissionais – Na sua prática diária, profissionais da saúde são expostos a tais tecnologias, e não a corpos duros e fedidos.
  • Flexibilidade – Elas podem lidar com diferentes vistas anatômicas de maneira mais fácil e mais rápido. A anatomia de qualquer situação patológica pode simplesmente ser carregada em um computador e mostrada para toda uma turma de estudantes, algo que é muito limitado utilizando-se cadáveres.
  • Longevidade – A tecnologia exige um investimento único e pode durar por muitas gerações, reduzindo as dificuldades de manejo de cadáveres.

Essencialmente, os defensores desse ponto de vista acreditam que o ensino da anatomia deveria simplesmente refletir o século XXI, ao invés de utilizar um método antiquado do terceiro século antes de Cristo.

Aula de Anatomia do Século XXII

As dissecações são úteis?

Agora considere o lado pro dissecações – dissecações de cadáveres são extremamente importantes e totalmente insubstituíveis para o aprendizado da anatomia. Esse ponto de vista é mais abstrato comparado com o seu adversário, e exige que você adote uma natureza levemente mais filosófica. Talvez a falta de benefícios concretos e óbvios permitiu a introdução do aprendizado orientado pela tecnologia no campo da anatomia. Aqui estão as vantagens das dissecações de cadáveres:

  • Ajuda os estudantes a evoluir – Psicologicamente, cientificamente e socialmente.
  • Desenvolve empatia – Também conhecida como “desligamento empático”,  é uma postura crucial exigida para todos os praticantes da medicina.
  • Confirma a realidade das estruturas
  • Ensina responsabilidade – Estudantes aprendem isso ao utilizar o mesmo cadáver por toda a duração do seu curso de anatomia.
  • Proporciona ensinamentos claros – Dissecações simplificam o aprendizado da anatomia e ensinam a ciência pura do corpo humano, removendo as complexidades que causam distrações.
  • Ilustra a morbidade e a mortalidade – Elas trazem o estudante para o mais próximo e compreensível encontro com a mortalidade humana, simultaneamente ensinando-os mecanismos de defesa para lidar com o estresse e a morte.
  • Feedback táctil – Informações recebidas ao se tocar um cadáver são indispensáveis para a correta compreensão das dimensões dos tecidos, densidades e força. Em outras palavras, estudantes apreciam todo o espectro da variação humana. Além disso, o simples ato de tocar e manipular um corpo dá ao estudante uma perspectiva única que auxilia no aprendizado.
  • Expõem variações anatômicas

Basicamente, os defensores desse ponto de vista acreditam que as dissecações sobreviveram por tanto tempo por uma razão, e seguem a filosofia de que ‘se algo não está quebrado, não tente consertar’.

Pediatrician

O debate

O debate sobre dissecações como uma forma de ensino e aprendizado não é simples. É semelhante ao corte de serrote, e não ao de um bisturi – o resultado é uma laceração feia e irregular que não possui bordas definidas. Assim, na verdade cabe a você decidir realmente de que lado você está.

Impacto emocional

O primeiro ponto que você deveria considerar são emoções. Não há dúvidas de que se expor a um cadáver embalsamado, que é literalmente dilacerado semana após semana, pode fazer surgir fortes reações em qualquer indivíduo. Esses sentimentos realmente atingem um ápice quando você tem que cortar de verdade o corpo. Dessa forma, é compreensível que alguns estudantes fiquem extremamente ansiosos e amedrontados. Alguns se forçam realmente a lidar com a situação e acabam no lado oposto, experimentando uma dessensibilização e ausência de emoções.

Lack of Emotion

O outro lado da moeda é que aprender a lidar com essa situação ensina aos futuros praticantes da medicina como lidar com estresse, situações desprazerosas e a desenvolver empatia. Eles compreendem e apreciam a morbidade (doença/pobreza de saúde) e a mortalidade (morte). Em outras palavras, eles evoluem socialmente, psicologicamente e emocionalmente. A questão que VOCÊ deve se perguntar é essa – “O que é mais importante? Se sentir confortável ou aprender a controlar as suas emoções, preparando-o para a montanha russa emocional que é a medicina?

Relevância e custos

O segundo ponto frequentemente debatido é o equilíbrio entre a relevância clínica e os custos de uma forma geral. Sejamos honestos, encontrar e tratar pacientes na sua prática diária é completamente diferente da sua sala de dissecações anatômicas. Seres humanos vivos não possuem o mesmo odor, cor, textura e mobilidade dos cadáveres. Assim, com todos os altos custos de se buscar e manter cadáveres para propósitos de ensino, sua relevância pode não ser suficiente.

Dissecação da axila

Além disso, quase todos os profissionais da saúde são expostos a tecnologia e não a cadáveres em clínicas, então eles deveriam ser expostos a diagnósticos sofisticados para se familiarizar com eles. Entretanto, é mais do que se vê na superfície. A anatomia não é uma ciência pura que todo profissional de saúde deveria conhecer? Em seu curso de anatomia, você está simplesmente tentando entender a estrutura do corpo humano. Dissecações de cadáveres servem somente para isso e cumpriram a tarefa muito bem por séculos.

Muitas escolas de medicina estão tentando ensinar tudo de uma única vez, então eles jogam em você muitos métodos de ensino simultaneamente – anatomia, diagnóstico, imagens, etc. Isso não é confuso para você, especialmente no primeiro ano de escola de medicina, quando a anatomia usualmente é ensinada? Uma causa comum é falta de tempo, mas eliminar as dissecações é a resposta mais eficaz? Mais uma vez, é VOCÊ que deve refletir sobre isso: “o que iria beneficiá-lo mais? Simplesmente aprender e dominar a anatomia sem todas as tecnologias e distrações ou um pouco de tudo sem dominar nada?” Existe ainda o ponto de que futuros profissionais estão ficando obsessivamente focados nos aspectos clínicos e não possuem conhecimento das ciências básicas...

Feedback táctil

Um terceiro ponto no debate são os benefícios, ou ausência dos mesmos, obtidos através do feedback táctil ao se dissecar um cadáver. Por um lado, especialistas dizem que tocar estruturas anatômicas é inútil, uma vez que nem todos se tornam cirurgiões. Além disso, realizar o seu trabalho exige que você tenha uma concepção mental, e não que ‘sinta’ a anatomia.

Tudo isso é verdade, mas a humanidade em geral e o aprendizado no século XXI possuem um denominador comum – “qual é o objetivo de estudar ou fazer isso, se não vou utilizar?”. Você está se tornando um profissional da saúde, uma posição sinônima de conhecimento, respeito, compaixão e honra. Apesar de não ser diretamente aplicável, saber diferenciar vasos sanguíneos de nervos à palpação, ou a pressão necessária para se cortar as camadas de uma fáscia são esperados de você. Como seres humanos, nós perdemos o prazer em coletar conhecimento, substituído por possuir mais conhecimento. Basicamente, nós acreditamos que se não há utilidade, não devemos nos preocupar com isso. Além disso tocar e manipular um cadáver te dá uma perspectiva única que facilita o aprendizado. Esse último ponto é mais abstrato – “Você quer se sentir orgulhoso de que está representando a sua profissão da melhor maneira que pode, ou quer simplesmente aprender as coisas que serão úteis?” Isso cabe somente a VOCÊ responder.

Touch

A resposta? Integração

Como você pode ver, existem muitos fatores subjetivos que devem ser considerados quando se discute dissecações de cadáveres. As que foram ilustradas nesse artigo são apenas um arranhão na superfície. Você e seus amigos podem ter respostas totalmente conflitantes sobre as questões acima. Talvez o melhor curso de ação a se tomar nesse momento seja integrar os cadáveres e a tecnologia. Ambos trazem tremendos benefícios a estudantes e eliminar totalmente as dissecações pode privar os estudantes de um crescimento pessoal crucial. Assim, mantenha seu bisturi, luvas, jaleco e touca e utilize-os nas suas práticas de anatomia. Ainda não é o fim deles!

Destaques

O debate

  • Existem muitos fatores subjetivos que devem ser levados em conta quando se discute a utilidade das dissecações de cadáveres. No fim o consenso geral não é preto ou branco, mas sim cinza e pessoal.
  • Alguns dizem que as dissecações de cadáveres podem evocar fortes emoções, possuem pouca relevância clínica, possuem limitações práticas e tomam bastante tempo. Assim, elas podem ser facilmente substituídas com tecnologia mais sofisticada que reflete o século XXI.
  • Entusiastas da dissecação acreditam que trabalhar com cadáveres permite aos estudantes desenvolver-se psicologicamente, desenvolver empatia, se tornarem mais responsáveis, compreender as variações anatômicas e aprender através do feedback táctil.

A decisão

Os aspectos que você deve balancear e as questões que você deve responder são as seguintes:

  • O que é mais importante? Sentir-se confortável ou aprender a controlar as suas emoções, preparando-se para a montanha russa de emoções que é a medicina?
  • O que iria beneficiá-lo mais? Simplesmente aprender e dominar a anatomia se nenhuma tecnologia para distraí-lo, ou fazer um pouco de tudo sem dominar nada?
  • Você quer sentir-se orgulhoso de que representa a sua profissão da melhor forma possível ou você quer simplesmente aprender as coisas úteis?
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Referências:

  • Pawlina, W. and N. Lachman: Dissection in learning and teaching gross anatomy: rebuttal to McLachlan. Anat Rec B New Anat, 2004. 281(1): p. 9-11.
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  • McLachlan, J.C. and D. Patten: Anatomy teaching: ghosts of the past, present and future. Med Educ, 2006. 40(3): p. 243-53.
  • Ghosh, S.K: Human cadaveric dissection: a historical account from ancient Greece to the modern era. Anat Cell Biol, 2015. 48(3): p. 153-69.
  • Aziz, M.A., et al: The human cadaver in the age of biomedical informatics. Anat Rec, 2002. 269(1): p. 20-32.
  • Custer T, Michael K (2015): The Utilization of the Anatomage Virtual Dissection Table in the Education of Imaging Science Students. J Tomogr Simul 1: 102. doi:10.4172/jts.1000102  

Artigo, revisão e layout:

  • Adrian Rad
  • Franchesca Druggan

Imagens:

Tradução para português, revisão e layout:

  • Rafael Lourenço do Carmo
  • Catarina Chaves
  • Rafaela Ervilha Linhares
© Exceto expresso o contrário, todo o conteúdo, incluindo ilustrações, são propriedade exclusiva da Kenhub GmbH, e são protegidas por leis alemãs e internacionais de direitos autorais. Todos os direitos reservados.

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